Fórum Social Mundial em Belém, por Sérgio Batista
Posted by Bacu de Sunga | Under Uncategorized Tuesday Feb 10, 2009Esse texto foi “Clipado” do site da EART com a permissão do Sérgio Batista, onde ele faz um excelente relato do Fórum Social Mundial que aconteceu em Belém.
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Palestra do Chris Carlsson – NOWTOPIAN.
(Um dos idealizadores da Bicicletada – Critical Mass).
Encontro Mundial de Cicloativistas – World Social Forum.
(Brasil, EUA, França, Itália, Irlanda, Peru, Venezuela e Uruguai).
Certamente Belém nunca tinha presenciado tanta diversidade cultural, religiosa, com sotaques de diversas partes do Brasil e tantos que eram os idiomas em um só local. Foram mais de 130 mil pessoas; 5808 organizações envolvidas, executando 2310 atividades autogestionadas; mais de 800 jornais de trinta países foram credenciados; 4500 jornalistas de mídias livres. Com tudo isso, o intercambio foi impressionante e já valendo muito a participação.

Não! Não é uma roda para iniciarmos uma trilha da EART…
Dias antes de iniciar oficialmente o Fórum, em uma das diversas idas e vindas à UFRA, conhecemos um local chamado Aldeia da Paz. Na “portaria” já fomos abordados e informados que é expressamente proibido qualquer tipo de bebida alcoólica, cigarro com filtro ou qualquer tipo de droga química.

A comunidade é muito organizada e antes de qualquer refeição é feita uma roda onde é dito vários procedimentos e convocações para alguma tarefa. Quem quisesse comunicar algo era só pedir a vez e o amuleto era repassado. A articulaçao do local funciona meio que autônomo do fórum, pois não depende de quase nada da organização do FSM. Cada um ajudava como podia, desde um pouco de comida (a grande maioria é vegetariano), lavando roupa, louças das refeições, pinturas do local etc. O lugar funciona com o trabalho braçal de cada um que residia lá. Tudo após ser construído, precisava de uma espécie de “encantamento”, que para o nosso entendimento seria um acabamento requintado. A aldeia é reduto de grandes artistas. O perfil do local é de Wicca’s, Santo Daimen, Hare Krishna, druidas, ateus, católicos etc (todos são bem-vindos após concordar com o regimento interno do local).

Aproximadamente 500 barracas de camping estavam armadas na Aldeia da Paz. Quando a noite caia, reinava as rodas de músicas de cada uma das religiões. A beira da fogueira, que sempre tem algum responsável para que ela não apague, todos têm direito a cantar uma canção que simbolize a sua crença.

Esse é uma das figuras que circulava pela Aldeia da Paz, o “Plebeu”. Vindo pedalando de Uberlândia-MG, ficamos por um bom tempo escutando os seus relatos de viagem (cada causo…).
Em um final de tarde chuvosa, do rigoroso inverno amazônico, eu, Gabi, JP, Dani e Fábio (tomando um tacacá), começamos a ver o mundo como essas pessoas vêem. Ficamos refletindo se não somos nós que vemos o mundo diferente, e, essas sim, fazem e vivem um mundo melhor. Chegamos à conclusão de que somos nós mesmos que nos impusemos essa realidade caótica de que vivemos hoje. E que a verdadeira vida (bem vivida), é vivida por essas pessoas.
A prosa não durou muito, e logo, logo caímos na nossa realidade cotidiana…

Com aproximadamente 35 mil pessoas na sua abertura, no dia 27/01, na Escadinha das Docas, as margens da Baía do Guajará, deu-se início centenas de debates e ações por dia, realizados nas tendas e auditórios, divididos na UFRA, UFPA e Hangar. Após vários discursos de autoridades, seguimos na marcha de abertura do Fórum, que já diziam alguns ser uma atração a parte e imperdível. E ainda com chuva, foi inesquecível.

Diversas Ong’s e grupos ativistas fizeram parte da marcha de abertura…

Bicicletada Pará / São Paulo: Trocando as camisas.

As bicicletas tiveram uma ala dedicada na marcha de abertura do Fórum, com a galera sempre cantando muito, de baixo de muita chuva ninguém ficava parado.

Mais fervor!

Momento de grande emoção foi quando colocamos as bicicletas ao chão e as reverenciamos.
Além de nós das bikes, muitos outros grupos roubaram a cena na marcha de abertura do Fórum…

Anônimos, como esse ativista que veio preparado para enfrentar a poluição que impera em nosso planeta.

“Loucas de Pedra Lilás”, ONG teatral de Refife-PE. O tema da coreografia é a luta feminina perante o machismo. Era tudo bem ensaiado e a cada coreografia era uma correria na marcha.
Parabéns, meninas!
Vocês foram uma das sensações da marcha de abertura.

Podia-se ver manifestações e propostas de todas as partes do mundo.

Foto: Raoni Beltrão
O primeiro dos muitos encontros com o Chris Carlsson.
Depois de pedalar por todo o centro de Belém, da Escadinha das docas até são Braz, já pudemos ter um gostinho de como seria a nossa Bicicletada, na sexta-feira dia 30/01.

Já na UFRA, um dos principais territórios do Fórum, o cotidiano no decorrer do Fórum era esse. Muita gente circulando a fim de presenciar algumas das propostas apresentadas por milhares de inscritos.
(Pricipal via da UFRA, bem em frente a tenda da Bicicletada).

Esse era o nosso espaço na UFRA. Muita gente parava admirada com tanta bicicleta diferente. Tv’s do mundo todo levaram imagens desse espaço.

A tenda também era ponto de encontro para os cicloturistas que participavam do fórum, assim como para os cicloativistas.

Era muito pai d’égua quando víamos a galera concentrada na leitura do nosso banner.

Recebemos a visita ilustre do Arcebispo de Belém, abençoando as nossas bikes, dom Orani João Tempesta.

Uma família inteira de cicloturistas colombianos visitou a nossa tenda.

Um outro mundo no FSM, esse era o Acampamento da Juventude, que abrigava cerca de 2000 barracas. Um dos locais mais econômicos do Fórum para se hospedar, bastava pagar R$ 15,00 e você tinha direito a armar a sua barraca e acesso a todos os eventos do Fórum. Dentro do camping tinha barraca com uma estrutura básica, ou até mesmo algumas com churrasqueira e mesa no “quintal”. E acreditem, na mesa tinha um verdadeiro banquete, com até leitão a pururuca.

Na seção de serviços do camping, a massagem nos pés era imperdível. Reparem a fila de espera.

O “Plebeu” precisou de apenas um pequeno palco, mas um grande público, para que ele mostrasse a sua performance, também como artista.

O perfume de jasmim poderia ser feito na hora, bem aos olhos do freguês.
Muita coisa legal poderia ser achada no camping. Com apenas algumas moedas você poderia comprar uma boa lembrança do Fórum.
No decorrer dos dias houveram muitas manifestações na UFRA. Muitas sobre os direitos humanos, justiça, direito das mulheres e outras que abordavam temas bem complexos…

Estamos na Marcha dos Vegetarianos…

A idéia aqui é mostrar, com um manequim vivo, todo o processo de sofrimento do animal, até o seu abate. Para aí sim, chegar ao seu prato.

“Eu…sou maconheiro…com muito orgulho…com muito amor…”.
É uma frase forte para o nosso dia a dia, mas que foi bradada durante o percurso na Marcha da Maconha, lá na UFRA. Me assustei quando escutei, porque não é a todo o momento que encontramos pessoas se orgulhando de serem maconheiros.
Vivemos em uma democracia e você tem todo o direito de expressar a sua vontade no que achares que pode ser certo. Mas isso não dá o direito para que a sociedade aceite o que achas que é certo. Cabe a ela “julgar”, e pode durar várias gerações.

Você pode até tirar a roupa e clamar pelos seus direitos…

Mas para plantar qualquer idéia, é importante ter clareza mental.
Quem pôde acompanhar o FSM – Fórum Social Mundial de perto, saiu convicto da importância do seu acontecimento para a sociedade como um todo. Falo isso porque já escutei muita gente falando que esse tipo de evento só agrega hippies ou pessoas querendo tirar proveito do evento. Ou ainda que por mais que seja discutida alguma proposta, nunca será colocada em prática. Eu gostaria de saber dessas pessoas se pelo menos elas discutem algo para a melhoria da sociedade, pelo menos da sua rua. Ou se quer manifestam o desejo de mudar alguma coisa. Se sim, expressem esse desejo, ele é muito importante.
Como o grupo Ecologia Urbana, que veio de SP defender três atividades. Abaixo uma delas:
- Cidades Verdes (texto: Ecologia Urbana – http://ecourbana.wordpress.com/):
As condições atuais enfrentadas por grande parte da população que habita as áreas urbanas, segregada no espaço e carente de serviços básicos, são conseqüências de um padrão de urbanização que vem sendo imposto às metrópoles, em especial dos países em desenvolvimento. Esse padrão foi marcado pelo processo insustentável de expansão urbana, justificado pelo paradigma desenvolvimentista, que propiciou e ainda propicia condições indignas e desiguais de sobrevivência.
Paradoxalmente a esse quadro de degradação das condições socioambientais, as cidades crescem em densidade e extensão num ritmo acelerado. Hoje, mais da metade da população mundial vive nas cidades, sendo que o modelo de desenvolvimento das mesmas continua favorecendo disparidades e intensificando cada vez mais os problemas como o da mobilidade urbana; da degradação de áreas verdes, muitas vezes favorecidas por políticas predatórias de ocupação do solo urbano; da falta de saneamento e de coleta de lixo, etc.
Neste contexto, o objetivo da oficina Cidades Verdes é fazer uma extensão dos encontros do Coletivo EcoUrbana, criando um espaço para diálogo, em que sejam apresentados outros pontos de vista e novas idéias.
Um pouco de conteúdo, algumas provocações e debates induziram uma conversa entre todos os presentes na Oficina a fim de integrar as inquietações para (re)pensar caminhos possíveis para as cidades.

Outro grande exemplo é o nosso amigo Pavão do Pedal, guia profissional da Chapada dos Veadeiros. Pedalou mais de 2000 km, do Alto Paraíso-GO, até chegar ao fórum, como voluntário. O sr. Reciclagem montou uma mini usina de lixo na UFRA, bem ao lado da tenda da Bicicletada.

Ainda de quebra nos proporcionou um grande curso básico de mecânica.
Hoje, 08/02, ele fez uma trilha conosco antes de partir para o seu lar, e me disse a seguinte frase durante a trilha:
“Sérgio, a vontade que tenho é vender o meu “barraco” e vim pra cá. Isso aqui é muito lindo. As pessoas aqui são muito especiais. Só não faço isso porque tenho responsabilidades profissionais”.
Pavão, você sempre será muito bem-vindo ao Pará, volte sempre. O trabalho que fazes também é muito bonito!
Paulo, o Pavão também é o nosso herói!
Em determinados momentos eu ficava imaginando o que poderia estar rolando nas centenas de tendas e dezenas de auditórios espalhados pelos territórios do FSM. Ou mesmo em algum canto informal, como o nosso (sem estar inscrito no fórum), muita coisa interessante, certamente. Em certas rodas poderia apenas imaginar mesmo. Longe de um inglês fluente, fiquei muito frustrado por não ter podido interagir mais com os estrangeiros. A todo o momento precisava do meu interprete pessoal, o JP (help me, João Paulo, pleased!). Ficava torcendo para que certos “gringos” falassem pelo menos um clássico portunhol, que aí, demorava, mas já dava pra quebrar o galho.
E nós?!
Todos nós estamos de parabéns pelo trabalho realizado. Não só pelo sucesso da tenda no Fórum, que atraiu a atenção de milhares de pessoas. Que nos renderam entrevistas para diversas TV’s e rádios nacionais e internacionais. Ou atraindo a atenção e curiosidade de anônimos que por alí passavam.

Introduzimos o bici-táxi como meio de transporte no território do FSM. Que para a nossa surpresa, a organização do Fórum não tinha nenhuma alternativa de transporte para dentro da UFRA e UFPA.
E é claro, pelo grande sucesso da tão esperada Bicicletada Pará. Valeu muito as reuniões pré-fórum para articular as propostas, todas elas decididas e opinadas por todos.

Uh, uh, uh, é Biciletada!
Em uma noite de muita chuva na grande Belém, conseguirmos reunir cerca de 100 ciclistas.

“Menos gasolina…mais adrenalina!”
Nos cruzamentos, a nossa faixa era leitura obrigatória dos motoristas parados no sinal.

Sempre cantado muito, a Bicicletada passou por diversas ruas de Belém. Ao chegarmos à frente de um grande hotel, paramos e chamamos muita atenção dos que estavam lá. O mezanino ficou cheio de gente nos aplaudindo.

“Menos carros…mais bicicletas!”
Se já não bastasse, foi de arrepiar também a nossa entrada do Parque da Residência. O local que é considerado um parque, imaginem não poder entrar com as nossas bicicletas, ou ao menos ter um bicicletário no local. Sem muita resistência por parte dos seguranças, entramos andando com as bikes ao lado, como a lei manda em locais púbicos.

Após muitos convites para pedalar comigo, enfim, o meu primo Rafael Batista (também afilhado), esteve pedalando nessa Bicicletada, além de ter sido o meu vizinho de barraca na UFRA. Digo que foi um triunfal início, porque a partir desse ato estará ajudando a mudar muita coisa.
Primo, eu tenho um carinho muito grande por você. É muito bacana passar horas ao teu lado, conversando sobre coisas, que as vezes, apenas nós percebemos. Nunca vou esquecer desse seu texto:
“Apenas digo que em breve viajaremos pelos quatro cantos da América do Sul, registrando tudo, ele com sua maquina fotográfica e eu com meu simples diário”.

Marcelo, já te conheço faz tempo, e durante esse período conheci a tua história no MTB paraense, como colecionar e trilheiro. Fique certo que és um dos ícones que temos aqui. Com tudo isso, fiquei muito triste por você não ter participado de toda a Bicicletada, saindo prematuramente por problemas mecânicos na sua bike, antes das principais ações, que certamente te deixariam muito orgulhoso, assim como eu estou. Mas não fique triste, pois o seu forte Brio (como estamos vendo nesta foto), irá perdurar até a próxima Bicicletada.

Foto: Fabio Araújo.
Como que fazendo as honras da casa, presenteamos o Chris com uma camisa. Retribuindo a visita em nossa cidade e pela excelente palestra ministrada. Com o meu inglês medíocre, mais uma vez recorri ao meu interprete pessoal (JP).
E a resposta veio em um alto e bom tom, português: “obrigado!”

Foto: Fabio Araújo.
Encerro este com um brinde em nome da Bicicletada no Brasil, e especialmente a essa primeira aqui em Belém.
“Nunca subestimem o poder que uma sociedade pode ter. Nós somos pequenos perante o poder desse país, mas ainda mandamos nele”.
“Goodbye people!”
PS.: Ganhamos um DVD da turma da Bicicletada de Belo Horizonte, que esteve no FSM. Achei muito interessante o formato de abordagem que eles usaram no documentário, e gostaria de marcar uma data para vermos juntos. Se possível, marcarmos uma reunião para as próximas ações e pôr em prática esse tipo de abordagem. Deixo aqui o meu muito obrigado a galera da Bicicletada de BH, especialmente ao Palestino, membro do grupo que liberou a sua reprodução e distribuição aos membros da Bicicletada paraense.

Quero agradecer em especial aos parceiros Agostinho – Loja do Pescador / Nautika, que acreditaram no evento e nos deram total apoio.
Também ao amigo e parceiro Francisco Sabino, que através da Camelbak também nos apoio.
Gostaria de agradecer também os seguintes:
- Galera de São Paulo: João Paulo, Zé, Gabi, Carol, Rafael e Thiago Benicchio;
- Marcelo Biker;
- Chris Carlsson;
- Fabio Cunha e Dani;
- Gustavo Nobre e Gaby;
- Antonino Costa;
- Guilherme Bahia;
- Robinson Baia;
- Denny Sousa;
- Piani;
- Raoni Beltrão;
E todos aqueles que participaram desse grande evento.
Uau, fiquei até emocionada com as enormes palavras do Sérgio, o FSM significou pra todos nós o que as palavras dele expressaram!
Gostei de mais…..